Máquina 2

Pai, eu não a quero mais.

Eu imagino que seja duro, acredito também que você deve achar que é apenas uma fase rebelde, mas meu Pai, esses cabelos não serão mais cortados novamente, e se forem cortados, será em um novo contexto e de outro olhar.

Desde muito cedo meu Pai era responsável pelo meu cabelo, era papel dele me levar no seu cabeleireiro para cortar os nossos cabelos, a gente sempre cortava juntos. Papai nunca deixou qualquer um encostar as mãos nos poucos cabelos brancos que tem, era um certo cuidado mas que esse cuidado era saciado com a maquina 2 passando, a cada 15 dias. A cada 15 dias, a máquina 2 se fazia presente em nossas vidas.

Eu acreditava que era estético, que a cabeça raspada me deixava mais atraente e as vezes até bonito, mas até o momento era tranquilo lidar, eu ainda estava na bolha, cabelos dos meninos raspados, das meninas presos ou alisados, uma ou outra destoava e apostava nos cachos, sempre com bastante creme para conter o volume. O cabelo era uma questão, mas havia um pacto de silêncio, e então, o cabelo não virava uma questão da identidade.

Tempo vai, tempo vem, e no meu ensino médio a bolha se rompe como um tapa no meu corpo. Em uma nova cidade, em uma nova escola com uma nova turma, hábitos mudaram radicalmente, convívios foram transformados e meu corpo quer se adaptar. Observava os meninos com seus franjões Justin Bieber e os imitava com a toalha ou com uma camisa na cabeça, e ao me olhar no espelho, percebia que havia algo que não iria se enquadrava, o nariz era muito grosso e não tinha photoshop capaz de concertar, a boca… Poderia ser menos exagerada, não combinava com as expressões que queria imitar, e a cor… Porque essa cor? Não dá! Nos colírios capricho não tem nenhum… Dessa cor. O conflito interno estava armado, trincheiras e trincheiras, de uma guerra interna que só estava começando.

Raspei a cabeça, comprei roupas de marcas, entrei pra academia, deixei de pagar aluguel pra frequentar festas e ser notado. Papo furado, no jogo mercadológico a marca é desvalorizada no seu contato, e nas relações, o corpo em contato com o seu suor é humilhação demais pra ser passado em público. E pra variar, não me encaixei.

E assim fui levando, construindo uma identidade a partir da aprovação do outro. Boca gostosa, disse um… Amarelo em você não fica legal… Continue a malhar que você vai ficar bem pagável… Sempre tive curiosidade sobre um pênis negro…

E nessas andanças a gente vai se adaptando, são como grandes muros em que temos que achar brechas para passar, mas que no fundo, são muros de labirintos, a gente está perdida e esse labirinto não tem premiação e nem fim.  O que enxergamos como positivos, pegamos pra si e nos moldamos em torno disso – A Boca é gostosa? Vira parte do corpo em que mais gostamos. Eu nunca gostei de amarelo mesmo. Ficar com um corpo malhado realmente vai me dar mais notoriedade. E meu pênis, ah, se quiser eu posso te mostrar.

É um caminho sem volta, sem nenhum retorno além de prazeres e gozos momentâneos trancados no quarto ou em algum esconderijo público, longe de todos.

E aí a gente se perde não nos reconhecemos e não nos adoramos. Vivemos em função do prazer do outro, dizendo sempre sim, pra tudo. Mas a humanidade ela também é medida a partir do não. E então eu disse não.

Não! Gosto muito da minha boca, mas você já escutou o que ela tem a falar? Na verdade, roupa amarela realça mais minha cor, preciso abastecer meu armário com amarelo! Ai malhar… Preguiça… Estou preferindo escrever ao som de música. E o pênis, bem, não mais.

E nesse novo caminho, outras aberturas são possíveis e um novo redescobrimento do seu corpo esta colocado. Um novo ângulo pra fotos são descobertos e se ficar mais preto, melhor. O nariz se encaixou perfeitamente com o formato do sorriso, e a pele, ainda bem que é essa pele! Imagine se fosse outra?!

Mas faltava algo, faltava algo que a cada 15 dias me acompanhava, sozinho em casa, agora eu mesmo cortava meus cabelos com a máquina que meu pai me deu quando me mudei, na maquina só tinha o pente 2, uma maquina antiga e que se prestava a manter o ritual. Quinzenalmente ouvia-se seu som, quinzenalmente cabelos aos chãos, quinzenalmente um muro erguido.

– Pai, pode ser ofensivo, e acredite não é! Mas hoje seu filho foi voar, seu filho não cabe mais nela, me desculpe quebrar o ritual, mas eu quero enfrentar o ar, eu quero me conhecer por inteiro e nessa minha descoberta eu vou te descobrindo um tanto. Você me levou no seu cabeleireiro e por vezes cortou meu cabelo para me tocar, para me ensinar e ser um pai carinhoso. O seu carinho eu guardo, não largo de jeito nenhum, mas hoje essa maquina 2 me machuca e me fere. É essa ferida que quero enfrentar.

Arquivo Pessoal, julho 2016.

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O racismo que ridiculariza Inês Brasil

Por: João Victor, Acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo, virginiano, 22 anos e frenético estudioso de obras pretas. Mas o que me trouxe até aqui foram as ruas, vielas e becos que percorri e as pegadas que construí.

Inêss Brasil virou febre nas redes sociais há alguns anos com um vídeo em que ela pede para entrar na casa do Big Brother Brasil e logo já foi alvo de inúmeros instrumentos de brincadeira, os chamados memes. Também logo foi “adotada” pela comunidade LGBT (gays brancos em sua maioria) e virou um ícone de humor e amor, o que dizem.

Visto dessa forma, fica tudo muito lindo e harmonioso, mas, não é dessa forma que funciona.

No surgimento da Inês se levantou uma “dúvida”: se ela era mulher ou travesti. Sim, a comunidade homossexual fazia enormes debates para “descobrir” se Inês era mulher de vagina ou mulher de pinto (coloco de maneira agressiva para essa galera perceber que esse debate já foi ultrapassado e para deixarem de tratar a travesti/trans no masculino! travesti/trans são mulheres!). Inês sempre falava que era “mulher” mas a comunidade homossexual branca em sua maioria não dava ouvidos e só foi finalizado a “dúvida” quando “descobriram” uma filha dela. Ora, a palavra de uma mulher nunca é levada a sério, agora imagine uma mulher negra?

Inês Brasil também faz shows pelo Brasil, não raro, na verdade bem rotineiro é possível encontrar vídeos/fotos dos shows e também da parte em que ela recebe essa galera para tirar fotos. Nos shows, o assédio, o abuso, o estupro é recorrente e normalizado pela boate com a afirmativa de “todo faz/ ela gosta”, o que me lembra muito bem a desculpa do “foi estuprada porque tava com shorte curto”. (Mais uma vez, culpabilizando a vítima!).

Como se não bastasse, postam um vídeo íntimo da Inês com um cara. E o que a comunidade homossexual branca faz? Abraça o homem branco que gravou/postou o vídeo o tornando super popular no instagram e, pirem, DJ super requisitado. E para Inês o que fica? Apenas uma repulsa dessa comunidade com o seu órgão genital, muitos ainda falavam “como esse cara teve a coragem?”, o homossexual carrega a misóginia com o corpo da mulher, falar em vagina faz os homossexuais desfilarem caras de nojo e alguns ainda imitam como se estivesse vomitando.

Ah, e o que dizer do empresário que a agrediu e ela denunciou mas o silêncio de quem a ama foi mais forte. Acabou que de forma bem complicada, por envolver inúmeros fatores, Inês falou que tudo não passou de um engano, mas as fotos estão aí para quem quiser ver a agressão sofrida!

Diante tudo isso, eu me pergunto, onde está esse amor? Inês é uma mulher negra, o que já se torna alvo fácil para a ridicularização, os inúmeros memes estão aí pra provar, suas músicas só são aceitas na balada às 4hrs da manha, que é a hora da selvageria/putaria, algo muito comum com o funk e com as culturas produzidas pela população negra( aliás, CULTURA sim a Inês produz!) e quando não está nessa situação, enche o peito pra dizer que “deus me livre ouvir Inês Brasil/funk”.

Eu não consigo enxergar a humanidade dela na forma em que essa comunidade apresenta, eu só consigo enxergar como um instrumento de humor em que vou gostar dela quando for conveniente e nas outras horas, é melhor ter distância.

Por essas e outras, eu não tenho estômago para o racismo e machismo de vocês movimento GGG!

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NOTA DE REPÚDIO PELA PRISÃO ARBITRÁRIA DA ADVOGADA ALGEMADA EM AUDIÊNCIA NO RJ

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O Coletivo Negrada – Coletivo de Estudantes Negros/as da UFES, indignados com o caso da prisão arbitrária da advogada Dra. Valéria Santos, vem a público manifestar seu mais completo repúdio aos casos de racismos que nós profissionais negros e negras somos submetidos no cotidiano das nossas vidas profissional pública ou privada.

Consideramos que o racismo é e tem sido um dos impedimentos mais marcantes para o não ingresso no mercado de trabalho formal, desde a formação acadêmica à profissional de toda e qualquer pessoa negra, sendo este também o principal responsável pela desqualificação de muitos cidadãos negros e negras no Brasil ainda em pleno século XXI.

Reconhecemos que a prática da advocacia é fundamental para a garantia dos direitos constitucionais e o exercício de advogadas e advogados negras e negros é de suma importância nas lutas pela igualdade, justiça social, contra o crime de racismo e os efeitos do racismo histórico e institucional.

Identificamos que o racismo contra profissionais do Direito manifesta-se em diversas situações no exercício profissional, como no caso de advogados/as que são impedidos por seguranças de entrar no fórum, por não “parecerem advogados”, além das diversas ocorrências de violação da dignidade humana destes mesmo antes do exercício profissional, ou seja, durante a formação em direito, como vimos no caso dos jogos jurídicos da PUC RJ, onde foram atiradas bananas nos estudantes negros/ da UFF, além de hostilização através da imitação de gestos similares a primatas e ofensa direcionada a uma aluna negra chamando-a de “macaca”, ou na existência de grupos como o “Direito VIP” que havia na UFES e que através de um grupo secreto em uma rede social contribuía para  a segregação de alunos cotistas, através da manutenção da homogeneidade racial e social das relações que anteriormente vigorava em maior grau na graduação. Perpetuando, portanto, a sustentação de um corpo jurídico que não somente se silencia para as questões raciais, mas, também atua reforçando tais estruturas racistas.

Destacamos que o posicionamento do STF sobre o racismo ao reconhecer sua existência a partir do julgamento da ADPF  186, não resolve e não é suficiente para combater as práticas reiteradas do racismo e do racismo institucional em nossa sociedade, sequer no âmbito do judiciário brasileiro, pois no cotidiano, nas práticas e decisões, juristas não negros/as continuam tratando a questão racial no Brasil como mera interpretação monocrática ou tipificação penal obsoleta quando não aplicam os princípios elementares da impenhorabilidade e imprescritibilidade da penalidade exigida, além de reduzir à punibilidade com a tipificação da injúria racial em casos cada vez mais recorrentes em denúncias no sistema jurídico brasileiro.

Portanto, face aos fatos expostos e tantos outros que não tomamos conhecimento exigimos providências enérgicas e efetivas das autoridades competentes em relação às agressões e violações de direitos das prerrogativas no exercício da advocacia, além do desagravo público da  advogada Dra. Valéria Santos, de Caxias RJ, a quem manifestamos nosso total apoio e solidariedade.

Em âmbito educacional cobramos posicionamentos e a proposição de medidas imediatas das faculdades e universidades publicas e privadas para que haja amplo debate sobre a inserção e particularidades do profissional historicamente discriminados e estereotipados em nossa sociedade e no ambiente jurídico, onde o réu e o juiz tem cores pré-determinadas, e a  adoção da introdução de autores negros nas bibliografias sociojurídicas. Tal cobrança se vislumbra em caráter especial à UFES, que divide o espaço universitário com o Coletivo Negrada, e que como já demonstrado possui histórico segregacionista.

OBS.: Em respeito à vontade da vítima não compartilhamos videos nem fotos divulgadas nas redes sobre o caso.

Abaixo subscrevemos,

Coletivo Negrada – Coletivo de Estudantes Negros/as da UFES

ASSINE AQUI A NOTA DE REPÚDIO: https://www.change.org/p/nota-de-rep%C3%BAdio-pela-pris%C3%A3o-arbitr%C3%A1ria-da-advogada-algemada-no-rj 

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Anexo nota  oficial da OAB sobre o caso:

Nota oficial sobre o grave atentado às prerrogativas profissionais durante audiência em Duque de Caxias – RJ

Brasília e Rio de Janeiro – A respeito dos graves fatos verificados na manhã desta segunda feira, no 3º. Juizado Especial de Duque de Caxias, em que a advogada Valéria Lúcia dos Santos, foi constrangida e impedida de exercer livre e plenamente as prerrogativas de usar da palavra, registrar os fatos em ata de audiência e bem defender os interesses de sua constituinte, por atos arbitrários de uma juíza leiga e da autoridade policial, as Comissões Nacional, Seccional e Subseccional de Defesa das Prerrogativas e Valorização da Advocacia, vêm a público manifestar o seu repúdio e reafirmar que:

1) A advocacia exerce relevante função pública de defesa da sociedade, sendo porta voz da defesa dos direitos da população brasileira perante o Poder Judiciário (art. 2º., parágrafos 1º, 2º e 3º, da Lei 8.906/94);

2) É direito do advogado e da advogada usar da palavra em todas as audiências e sessões judiciais, devendo suas manifestações serem regularmente registradas em atas e termos, bem como apreciadas pela autoridade que conduz o ato judicial (art. 7º., X, XI e XII, da lei 8.906/94);

3) O uso de algemas, conforme súmula vinculante n. 11 do STF, só é lícito em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, o que em momento algum ocorreu no lamentável episódio;

4) Advogados e Advogadas não podem ser preso(a)s no exercício da profissão, salvo em caso de crime inafiançável (art. 7º., par. 3º., da Lei 8.906/94), o que também não se verificou durante o ato em questão, visto que nem mesmo crime houve;

5) Nenhuma prisão de advogado ou advogada durante o exercício da profissão pode ser feita sem a presença de representante da OAB (art. 7º., IV, da lei 8.906/94).

6) A voz do advogado e da advogada é seu instrumento de defesa da boa aplicação das leis e da realização da Justiça. Atos que objetivam calar a advocacia, atentam contra a democracia, contra os valores republicanos e sobretudo contra o exercício da cidadania. A OAB jamais aceitará isso.

A infeliz e arbitrária condução da audiência pelas autoridades que lá se encontravam, revelou a absurda violação de todos os dispositivos legais acima mencionados, além de completo despreparo e total desrespeito à dignidade da advocacia, em inacreditável supressão de garantias profissionais e constitucionais, absolutamente incompatível com o estado democrático de direito.  

Ao mesmo tempo em que repudiam o tratamento vexatório e agressivo, as comissões de prerrogativas do CFOAB, OAB-RJ e OAB Duque de Caxias, manifestam solidariedade a Dra. Valéria Lúcia dos Santos, esclarecendo que, além da assistência prestada durante o episódio, ainda adotarão as seguintes providências:

a) Representação por abuso de autoridade contra todas as autoridades envolvidas;

b) Representação disciplinar perante as corregedorias, contra todas as autoridades envolvidas;

c) Averiguação da conduta ética-disciplinar perante a OAB, em relação a Juíza Leiga;

d)   Encaminhamento de desagravo público em favor da Dra. Valéria Lúcia dos Santos;

e) Assistência integral na ação indenizatória, em face dos danos morais sofridos, caso venha a ser proposta.

f) Solicitação formal de providências às corregedorias envolvidas no sentido de que não se repitam atos semelhantes.

Brasília, DF, 10 de setembro de 2018.

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Os 05 anos de luta antirracista do Coletivo Negrada: um pouquinho de nossa história.

IMG_0252Neste 18 de Junho 2017 comemoramos os 05 anos da organização do Movimento Negro que nasceu dentro da Universidade Federal do ES, o Coletivo Negrada!
Hoje é o “Dia de Mandela”, e não foi por acaso que escolhemos essa data para comemorar nosso dia também! O dia foi aguardado para que fosse realizada a primeira reunião do coletivo em junho de 2012.
O Negrada surgiu da demanda pela implemetação da Lei 10639 de 2003, além da forte pressão do debate pela aprovação da Lei de cotas raciais na UFES, mais vários foram os fatores de violencias ao qual os estudantes negros e negras sofreram na escola e sofrem ainda na universidade, onde esse processo permanece devido a luta pela mudança do status quo nos cursos de graduação.
Com isso, após a separação de turmas entre cotistas e não-cotistas no curso de Letras Portugues/espanhol da UFES, algumas alunas resolveram criar o coletivo que se firmou rapidamente como organização do movimento negro e até hoje se mantém resistindo em diversas frentes de atuação.
Seja no movimento social negro, na cultural, audiovisual, literatura, o coletivo sempre teve como foco o acesso e permanência na educação com várias ações junto as escolas públicas municipais e estaduais, para o combate e denúncias de racismos, assim como, a realização de seminários e debates acerca do tema racísmo e relações étnico-raciais.
Esses acontecimentos ainda estão longe de serem isolados, são muitos os relatos de ações racistas por parte de professores e alunos, as ações institucionais criminalizam os estudantes negros, e muitos sobrem agressões por parte da segurança da UFES além de os abusos contra os estudantes negros serem rotineiros na universidade.
Por tudo isso se faz necessário a atuação de um Movimento Negro lá dentro!
A gente entra no Negrada quase sempre pela dor, mas permanecemos por amor. Um processo de fortalecimento, reconhecimento e sobrevivência.
Inspiração​ na vitória de nossos irmãos e determinação quando tentam nos fazer cair.

Poder para o Povo Preto!!!!

Somos o Coletivo Negrada
#Negrada5Anos #EuSouNegrada #SomosNegrada
Confiram um pouquinho mais de nossa história:
https://m.youtube.com/watch?v=j6uIMG_0252

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Masculinidades Negras: Pode um corpo negro nascer?

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por: João Victor Santos, Colunista do Portal Negrada, Graduando em Ciências Sociais (UFES), Membro do Conselho de Juventudes do Estado do ES e Militante do Coletivo Negra.

“Nós entendemos que assim que o homem africano se levanta e declara ser um homem, ele se coloca em uma absoluta e imediata oposição ao sistema europeu, que tem o definido como sendo menos que um homem ou um não homem. Indo mais adiante, a razão pela qual isso se torna uma guerra é porque o homem euro-americano tem definido sua masculinidade baseada nas lacunas causadas na masculinidade do homem africano. Então ele só é homem porque o não é um homem. Se o africano se tornar homem, por sua própria definição, ele (homem branco) automaticamente perderá a sua masculinidade coletiva.”

“A masculinidade negra representa uma ameaça ao homem branco, ela é o profundo medo cultural do negro figurado no temor psíquico da sexualidade ocidental (Bhabha, 2003:71). Além de ter seu pênis racializado, a inteligência dos homens negros foi avaliada pelos europeus na proporção inversa do tamanho de seu pênis.
(…)

O homem negro não é um homem. Como nos lembra Fanon (1983), no imaginário ocidental, um homem negro não é um homem, antes ele é um negro e como tal não tem sexualidade, tem sexo, um sexo que desde muito cedo foi descrito no Brasil com atributo que o emasculava ao mesmo tempo em que o assemelhava a um animal em contraste com o homem branco. Este imaginário é perceptível no modo como a masculinidade é representada na literatura, cinema, telenovelas, jornais, revistas e propagandas, inclusive nas oficiais. Nelas o temor psíquico do negro macrofálico é retratado através de estereótipos que foram forjados durante longos anos até tornaram-se verdade, neste sentido, o livro O Cortiço de Aluísio Azevedo, um clássico da Literatura brasileira publicado em 1890, é paradigmático.

(…)

O ideal da miscigenação do novo Estado brasileiro que excluiu o homem negro simbolicamente é muito bem representado no quadro A Redenção de Cam, pintado em 1895 por Modesto Brocos. Nele vemos uma senhora negra agradecendo a Deus pelo seu neto branco no colo de sua filha de pela mais clara que ela, fruto de uma primeira miscigenação. Os três são observados por um homem branco, fonte da redenção, sentado com um leve sorriso no rosto. O fruto desta união é um varão e tem a pela tão clara quanto o pai. Este seria o auge do sonho da política de miscigenação, como política de Estado: o homem branco como agente purificador da nova raça brasileira. Desta forma o homem negro foi estrategicamente posto de lado ao se pensar o Brasil como um cadinho onde a miscigenação teria dado certo. Neste mesmo período o homem negro torna-se motivo de preocupações e alvo das atenções de higienistas e chefes de policia, o homem negro, parafraseando Pereira Passos, passa ser caso de polícia ou psiquiatria.”

Referências: 

“AS REPRESENTAÇÕES DO HOMEM NEGRO E SUAS CONSEQUÊNCIAS” (Rolf Ribeiro de Souza)” (https://drive.google.com/…/0B0S8H0I0DtIlcWdpSDVPTk1BanM/view)

“CICLO DE FORMAÇÃO MARCUS GARVEY: CÍRCULO PRETO APRESENTA: MASCULINIDADES EM FOCO” (https://drive.google.com/…/0B5-jP9sP0-j_S3A1VzdHTnJrcU0/view )

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NOTA SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO DO COLETIVO NEGRADA

O Coletivo Negrada é uma reconhecida e respeitada organização do Movimento Negro, composta por estudantes e professores negras e negros comprometidos cotidianamente com a pauta pela equidade racial, na luta anti-racista e contra o genocídio da população negra, com atuação e repercussão nacional. Há 4 anos na UFES sofremos com o racismo nas relações entre discentes, docentes e principalmente com o racismo Institucional, lutamos contra ele e realizamos inúmeras ações educativas, de diálogos e enfrentamento.

Há algum tempo vários boatos relacionados às supostas ações atribuídas ao Coletivo Negrada estão sendo espalhados na tentativa de criminalizar o Coletivo. O racismo e o racismo institucional que estruturam a sociedade corroboram para promoção de mentiras contra o Coletivo Negrada, a fim de desmoralizar a nossa luta e organização. No entanto, permanecemos fortes e unidos.

Por meio dessa nota, viemos escurecer alguns pontos:

O Coletivo Negrada se preocupa com a construção coletiva para suas ações, por isso, nossas decisões oficiais partem do debate realizado em reuniões presenciais ou online entre os membros ativos. Dessa forma, as ações individuais, de pequenos grupos ou opiniões pessoais de membros/pessoas simpatizantes NÃO podem ser entendidas como ações organizadas/deliberadas pelo Coletivo Negrada, se a pauta não for discutida de forma prévia e coletivamente entre os seus membros.

1. O Negrada não se organiza por coordenação/direção ou qualquer estrutura hierárquica, nossa organização é pautada apenas na referência dos membros fundadores e nos membros ativos.

2. Fazem parte do Coletivo Negrada os membros ativos que vão às reuniões presenciais, constroem os seminários internos, participam das reuniões online, são responsáveis por determinadas atividades, estão em constante diálogo com os demais membros do Coletivo e, principalmente, compartilham dos valores do Coletivo Negrada.

3. O Coletivo Negrada NÃO responde por ações deliberadamente individuais de todos os estudantes negros da UFES, mas acolhe as denúncias de racismo para averiguação, apoio à vítima e encaminhamentos legais.

4. Ao associar qualquer protagonismo de pessoas pretas da UFES ao Coletivo Negrada, essa associação é racista. As/os estudantes pretas/os da universidade têm autonomia política e a exercem sem tutela de movimentos ou espaços institucionalizados, e os mesmos, devem ser respeitados.

5. Existem, além do Coletivo Negrada, outras organizações de universitários pretos na UFES e esses devem ser ouvidos, respeitados e terem visibilidade.

6. O Coletivo Negrada NÃO se propõe a ser uma organização universal, muito menos representante hegemônico de TODOS os estudantes negros da universidade.

7. O Coletivo Negrada NÃO É MOVIMENTO ESTUDANTIL, muito menos reivindicamos esse lugar, somos um Movimento Negro Universitário.

8. O Coletivo Negrada enquanto organização não disputa vaga em eventos/viagens relacionados a movimento estudantil, a menos que seja considerado pelo Coletivo alguma atividade importante para avançar no debate racial.

9. O Coletivo Negrada não está à frente das ocupações universitárias. Nos organizamos durante todo o mês de outubro e novembro para apoiar as ocupações secundaristas através de oficinas.

10. Durante o mês de novembro todas as atividades oficiais do Coletivo Negrada foram direcionadas à organização do Novembro Negro (palestras, oficinas, rodas de conversa, participação em eventos, atividades do projeto de extensão nas escolas públicas). Além da organização/participação na audiência pública sobre a fraude nas cotas raciais.

11. O Coletivo Negrada apoia as/os irmãs/os da Ocupação Quilombo Zacimba Gaba – Moradia Estudantil, ocupação legítima de estudantes pretos contra a PEC 55 e a MP 746. Além das pautas pela Moradia estudantil e pela retirada do processo da reitoria contra 3 estudantes negros.

12. O Negrada não adota a violência física como estratégia de luta, mas reconhece que o racismo por si só já é extremamente violento com os corpos pretos.

13. Entendemos que o racismo foi central na perseguição ao Coletivo Negrada e a estudantes negros durante a ocupação da reitoria de dezembro de 2015, que acarretou a um processo administrativo-financeiro à 3 estudantes negros, uma ocupação composto pela movimento estudantil.

Enquanto um Coletivo de universitários pretos temos a responsabilidade social de sermos multiplicadores do combate ao racismo e nossas ações extrapolam os muros da Universidade. O Coletivo Negrada realiza diversas ações educacionais como o projeto de extensão universitário CineNegrada que também é um projeto contemplado pela SECULT, o grupo de estudos Feminismo Negro e interseccionalidade, a participações em seminários e encontros acadêmicos, encabeçou a denúncia das fraudes nas cotas raciais, tem publicações acadêmicas sobre questões raciais de membros como alunos e professores, realiza palestras de importância da implementação da lei 10639/03 nas escolas e também parcerias com instituições públicas e privadas de ensino e produção cultural independente.

Apontar o Coletivo Negrada como responsável sobre qualquer ação em que seja pautada a questão racial, é invisibilizar e desqualificar a autonomia e possibilidade de outras organizações de estudantes negros que realizam suas próprias ações e que não necessariamente fazem parte do Coletivo Negrada.

As tentativas de desmoralizar o Coletivo Negrada são muitas e protagonizadas por quem não se compromete com o combate ao racismo e por isso prefere apontar falhas ao invés de somar.

A nossa militância tem referência ancestral, começou com os nossos mais velhos e a sua memória e luta devem ser sempre lembradas e aplicadas, estamos onde nosso povo está, lutamos pelo o que nosso povo luta e nesse caminho, sonhamos em transformar a universidade em um território preto abolindo assim todas as novas prisões.

Vida Dandara, Viva Zumbi e libertem Rafael Braga!

Nos Aquilombemos!

Novembro Negro

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RELIGIÃO E CONSCIÊNCIA NEGRA

Quando eu descobri que Deus me criou PRETO…

Há um ano atrás lá estava eu, trêmulo, pois como muitos de nós, vivi toda a minha vida negando minha cor e minha etnia. Mas, de repente eu me vi “nascer” PRETO do pior modo possível: O racismo bateu, arrombou minha porta. E eu abri.

Depois de um caso nacionalmente conhecido de racismo, onde fui era umas das vítimas, junto com minha turma do 2º período da universidade, ingressei no mundo da discussão racial. Mas eu era apenas um menino, ainda estava se encaixando na minha cabeça o que era ser preto. Porém, fui convidado pra falar sobre negritude e protestantismo em uma igreja batista. E agora? o que fazer? Se ser preto era uma novidade pra mim, imagina ser preto e protestante? qual relação havia nisso tudo?

Passe a me aprofundar nas leituras de textos que até então eram por mim desconhecidos, e busquei a bíblia, fiz minhas orações ao meu Deus, que a cada dia se revelava a mim, não mais como um branco velho barbudo ausente, mas como um preto igual a mim e que me entende, e marchei pra igreja. No local vi conhecidos, irmãos da igreja, o meu pastor e meus irmãos da militância. continuava trêmulo.

Minha irmã Tamyres, com todo seu afeto nos conduziu na reflexão sobre o tema. Foi lindo ouvi-la e perceber a importância desse tema ser debatido na Igreja.
Mas, de repente, lá estava eu, era minha vez. Eu, minha bíblia, e minha apresentação. Me lancei em Deus e fui. Fluiu. Mostrei o preto na bíblia e como ele é retratado e como o próprio Deus o trata e no fim afirmei: RACISMO É PECADO! Senti espanto, novidade e convencimento. Prossegui.Mostrei os meus vários irmãos pretos que lutaram por um mundo melhor desde os anglicanos até o líder pentecostal Willian Seymor.

E agora, o que dizer? havia findado a fala.
Mas eis que o Espírito me tocou e realmente me toquei de que o eterno Deus não erra em sua criação, e se Ele me fez preto, Ele não errou, quem errou nossa humanidade.
Resultado: foi lindo ver os pretos cristãos reconhecendo este Deus que empreteceu suas peles e encrespou seus cabelos e os deu tambores.  Houve apelo. A reunião finalizou com todos reconhecendo seus pecados de racismo e pedindo perdão por ele.

Dou glória ao meu Deus, que me fez PRETO. Eu posso ter “nascido” preto por um ato racista, mas está palestra foi meu renascimento como PRETO cristão, pois senti Deus me conduzindo em seus braços para se revelar a mim como Ele realmente é: O verbo que se fez carne na minha cor e me criou PRETO.

Obrigado SENHOR, MEU DEUS PRETO. Do ódio por minha pele e pelo ocorrido ao seu maravilhoso amor de Pai que acolhe e acalenta. Brigado meu PRETO REI.

Por: Timóteo André, Graduando em Ciências Sociais – UFES, Cristão Anglicano e membro do Coletivo Negrada.

 

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