Máquina 2

Pai, eu não a quero mais.

Eu imagino que seja duro, acredito também que você deve achar que é apenas uma fase rebelde, mas meu Pai, esses cabelos não serão mais cortados novamente, e se forem cortados, será em um novo contexto e de outro olhar.

Desde muito cedo meu Pai era responsável pelo meu cabelo, era papel dele me levar no seu cabeleireiro para cortar os nossos cabelos, a gente sempre cortava juntos. Papai nunca deixou qualquer um encostar as mãos nos poucos cabelos brancos que tem, era um certo cuidado mas que esse cuidado era saciado com a maquina 2 passando, a cada 15 dias. A cada 15 dias, a máquina 2 se fazia presente em nossas vidas.

Eu acreditava que era estético, que a cabeça raspada me deixava mais atraente e as vezes até bonito, mas até o momento era tranquilo lidar, eu ainda estava na bolha, cabelos dos meninos raspados, das meninas presos ou alisados, uma ou outra destoava e apostava nos cachos, sempre com bastante creme para conter o volume. O cabelo era uma questão, mas havia um pacto de silêncio, e então, o cabelo não virava uma questão da identidade.

Tempo vai, tempo vem, e no meu ensino médio a bolha se rompe como um tapa no meu corpo. Em uma nova cidade, em uma nova escola com uma nova turma, hábitos mudaram radicalmente, convívios foram transformados e meu corpo quer se adaptar. Observava os meninos com seus franjões Justin Bieber e os imitava com a toalha ou com uma camisa na cabeça, e ao me olhar no espelho, percebia que havia algo que não iria se enquadrava, o nariz era muito grosso e não tinha photoshop capaz de concertar, a boca… Poderia ser menos exagerada, não combinava com as expressões que queria imitar, e a cor… Porque essa cor? Não dá! Nos colírios capricho não tem nenhum… Dessa cor. O conflito interno estava armado, trincheiras e trincheiras, de uma guerra interna que só estava começando.

Raspei a cabeça, comprei roupas de marcas, entrei pra academia, deixei de pagar aluguel pra frequentar festas e ser notado. Papo furado, no jogo mercadológico a marca é desvalorizada no seu contato, e nas relações, o corpo em contato com o seu suor é humilhação demais pra ser passado em público. E pra variar, não me encaixei.

E assim fui levando, construindo uma identidade a partir da aprovação do outro. Boca gostosa, disse um… Amarelo em você não fica legal… Continue a malhar que você vai ficar bem pagável… Sempre tive curiosidade sobre um pênis negro…

E nessas andanças a gente vai se adaptando, são como grandes muros em que temos que achar brechas para passar, mas que no fundo, são muros de labirintos, a gente está perdida e esse labirinto não tem premiação e nem fim.  O que enxergamos como positivos, pegamos pra si e nos moldamos em torno disso – A Boca é gostosa? Vira parte do corpo em que mais gostamos. Eu nunca gostei de amarelo mesmo. Ficar com um corpo malhado realmente vai me dar mais notoriedade. E meu pênis, ah, se quiser eu posso te mostrar.

É um caminho sem volta, sem nenhum retorno além de prazeres e gozos momentâneos trancados no quarto ou em algum esconderijo público, longe de todos.

E aí a gente se perde não nos reconhecemos e não nos adoramos. Vivemos em função do prazer do outro, dizendo sempre sim, pra tudo. Mas a humanidade ela também é medida a partir do não. E então eu disse não.

Não! Gosto muito da minha boca, mas você já escutou o que ela tem a falar? Na verdade, roupa amarela realça mais minha cor, preciso abastecer meu armário com amarelo! Ai malhar… Preguiça… Estou preferindo escrever ao som de música. E o pênis, bem, não mais.

E nesse novo caminho, outras aberturas são possíveis e um novo redescobrimento do seu corpo esta colocado. Um novo ângulo pra fotos são descobertos e se ficar mais preto, melhor. O nariz se encaixou perfeitamente com o formato do sorriso, e a pele, ainda bem que é essa pele! Imagine se fosse outra?!

Mas faltava algo, faltava algo que a cada 15 dias me acompanhava, sozinho em casa, agora eu mesmo cortava meus cabelos com a máquina que meu pai me deu quando me mudei, na maquina só tinha o pente 2, uma maquina antiga e que se prestava a manter o ritual. Quinzenalmente ouvia-se seu som, quinzenalmente cabelos aos chãos, quinzenalmente um muro erguido.

– Pai, pode ser ofensivo, e acredite não é! Mas hoje seu filho foi voar, seu filho não cabe mais nela, me desculpe quebrar o ritual, mas eu quero enfrentar o ar, eu quero me conhecer por inteiro e nessa minha descoberta eu vou te descobrindo um tanto. Você me levou no seu cabeleireiro e por vezes cortou meu cabelo para me tocar, para me ensinar e ser um pai carinhoso. O seu carinho eu guardo, não largo de jeito nenhum, mas hoje essa maquina 2 me machuca e me fere. É essa ferida que quero enfrentar.

Arquivo Pessoal, julho 2016.

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O racismo que ridiculariza Inês Brasil

Por: João Victor, Acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo, virginiano, 22 anos e frenético estudioso de obras pretas. Mas o que me trouxe até aqui foram as ruas, vielas e becos que percorri e as pegadas que construí.

Inêss Brasil virou febre nas redes sociais há alguns anos com um vídeo em que ela pede para entrar na casa do Big Brother Brasil e logo já foi alvo de inúmeros instrumentos de brincadeira, os chamados memes. Também logo foi “adotada” pela comunidade LGBT (gays brancos em sua maioria) e virou um ícone de humor e amor, o que dizem.

Visto dessa forma, fica tudo muito lindo e harmonioso, mas, não é dessa forma que funciona.

No surgimento da Inês se levantou uma “dúvida”: se ela era mulher ou travesti. Sim, a comunidade homossexual fazia enormes debates para “descobrir” se Inês era mulher de vagina ou mulher de pinto (coloco de maneira agressiva para essa galera perceber que esse debate já foi ultrapassado e para deixarem de tratar a travesti/trans no masculino! travesti/trans são mulheres!). Inês sempre falava que era “mulher” mas a comunidade homossexual branca em sua maioria não dava ouvidos e só foi finalizado a “dúvida” quando “descobriram” uma filha dela. Ora, a palavra de uma mulher nunca é levada a sério, agora imagine uma mulher negra?

Inês Brasil também faz shows pelo Brasil, não raro, na verdade bem rotineiro é possível encontrar vídeos/fotos dos shows e também da parte em que ela recebe essa galera para tirar fotos. Nos shows, o assédio, o abuso, o estupro é recorrente e normalizado pela boate com a afirmativa de “todo faz/ ela gosta”, o que me lembra muito bem a desculpa do “foi estuprada porque tava com shorte curto”. (Mais uma vez, culpabilizando a vítima!).

Como se não bastasse, postam um vídeo íntimo da Inês com um cara. E o que a comunidade homossexual branca faz? Abraça o homem branco que gravou/postou o vídeo o tornando super popular no instagram e, pirem, DJ super requisitado. E para Inês o que fica? Apenas uma repulsa dessa comunidade com o seu órgão genital, muitos ainda falavam “como esse cara teve a coragem?”, o homossexual carrega a misóginia com o corpo da mulher, falar em vagina faz os homossexuais desfilarem caras de nojo e alguns ainda imitam como se estivesse vomitando.

Ah, e o que dizer do empresário que a agrediu e ela denunciou mas o silêncio de quem a ama foi mais forte. Acabou que de forma bem complicada, por envolver inúmeros fatores, Inês falou que tudo não passou de um engano, mas as fotos estão aí para quem quiser ver a agressão sofrida!

Diante tudo isso, eu me pergunto, onde está esse amor? Inês é uma mulher negra, o que já se torna alvo fácil para a ridicularização, os inúmeros memes estão aí pra provar, suas músicas só são aceitas na balada às 4hrs da manha, que é a hora da selvageria/putaria, algo muito comum com o funk e com as culturas produzidas pela população negra( aliás, CULTURA sim a Inês produz!) e quando não está nessa situação, enche o peito pra dizer que “deus me livre ouvir Inês Brasil/funk”.

Eu não consigo enxergar a humanidade dela na forma em que essa comunidade apresenta, eu só consigo enxergar como um instrumento de humor em que vou gostar dela quando for conveniente e nas outras horas, é melhor ter distância.

Por essas e outras, eu não tenho estômago para o racismo e machismo de vocês movimento GGG!

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Masculinidades Negras: Pode um corpo negro nascer?

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por: João Victor Santos, Colunista do Portal Negrada, Graduando em Ciências Sociais (UFES), Membro do Conselho de Juventudes do Estado do ES e Militante do Coletivo Negra.

“Nós entendemos que assim que o homem africano se levanta e declara ser um homem, ele se coloca em uma absoluta e imediata oposição ao sistema europeu, que tem o definido como sendo menos que um homem ou um não homem. Indo mais adiante, a razão pela qual isso se torna uma guerra é porque o homem euro-americano tem definido sua masculinidade baseada nas lacunas causadas na masculinidade do homem africano. Então ele só é homem porque o não é um homem. Se o africano se tornar homem, por sua própria definição, ele (homem branco) automaticamente perderá a sua masculinidade coletiva.”

“A masculinidade negra representa uma ameaça ao homem branco, ela é o profundo medo cultural do negro figurado no temor psíquico da sexualidade ocidental (Bhabha, 2003:71). Além de ter seu pênis racializado, a inteligência dos homens negros foi avaliada pelos europeus na proporção inversa do tamanho de seu pênis.
(…)

O homem negro não é um homem. Como nos lembra Fanon (1983), no imaginário ocidental, um homem negro não é um homem, antes ele é um negro e como tal não tem sexualidade, tem sexo, um sexo que desde muito cedo foi descrito no Brasil com atributo que o emasculava ao mesmo tempo em que o assemelhava a um animal em contraste com o homem branco. Este imaginário é perceptível no modo como a masculinidade é representada na literatura, cinema, telenovelas, jornais, revistas e propagandas, inclusive nas oficiais. Nelas o temor psíquico do negro macrofálico é retratado através de estereótipos que foram forjados durante longos anos até tornaram-se verdade, neste sentido, o livro O Cortiço de Aluísio Azevedo, um clássico da Literatura brasileira publicado em 1890, é paradigmático.

(…)

O ideal da miscigenação do novo Estado brasileiro que excluiu o homem negro simbolicamente é muito bem representado no quadro A Redenção de Cam, pintado em 1895 por Modesto Brocos. Nele vemos uma senhora negra agradecendo a Deus pelo seu neto branco no colo de sua filha de pela mais clara que ela, fruto de uma primeira miscigenação. Os três são observados por um homem branco, fonte da redenção, sentado com um leve sorriso no rosto. O fruto desta união é um varão e tem a pela tão clara quanto o pai. Este seria o auge do sonho da política de miscigenação, como política de Estado: o homem branco como agente purificador da nova raça brasileira. Desta forma o homem negro foi estrategicamente posto de lado ao se pensar o Brasil como um cadinho onde a miscigenação teria dado certo. Neste mesmo período o homem negro torna-se motivo de preocupações e alvo das atenções de higienistas e chefes de policia, o homem negro, parafraseando Pereira Passos, passa ser caso de polícia ou psiquiatria.”

Referências: 

“AS REPRESENTAÇÕES DO HOMEM NEGRO E SUAS CONSEQUÊNCIAS” (Rolf Ribeiro de Souza)” (https://drive.google.com/…/0B0S8H0I0DtIlcWdpSDVPTk1BanM/view)

“CICLO DE FORMAÇÃO MARCUS GARVEY: CÍRCULO PRETO APRESENTA: MASCULINIDADES EM FOCO” (https://drive.google.com/…/0B5-jP9sP0-j_S3A1VzdHTnJrcU0/view )

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NOTA SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO DO COLETIVO NEGRADA

O Coletivo Negrada é uma reconhecida e respeitada organização do Movimento Negro, composta por estudantes e professores negras e negros comprometidos cotidianamente com a pauta pela equidade racial, na luta anti-racista e contra o genocídio da população negra, com atuação e repercussão nacional. Há 4 anos na UFES sofremos com o racismo nas relações entre discentes, docentes e principalmente com o racismo Institucional, lutamos contra ele e realizamos inúmeras ações educativas, de diálogos e enfrentamento.

Há algum tempo vários boatos relacionados às supostas ações atribuídas ao Coletivo Negrada estão sendo espalhados na tentativa de criminalizar o Coletivo. O racismo e o racismo institucional que estruturam a sociedade corroboram para promoção de mentiras contra o Coletivo Negrada, a fim de desmoralizar a nossa luta e organização. No entanto, permanecemos fortes e unidos.

Por meio dessa nota, viemos escurecer alguns pontos:

O Coletivo Negrada se preocupa com a construção coletiva para suas ações, por isso, nossas decisões oficiais partem do debate realizado em reuniões presenciais ou online entre os membros ativos. Dessa forma, as ações individuais, de pequenos grupos ou opiniões pessoais de membros/pessoas simpatizantes NÃO podem ser entendidas como ações organizadas/deliberadas pelo Coletivo Negrada, se a pauta não for discutida de forma prévia e coletivamente entre os seus membros.

1. O Negrada não se organiza por coordenação/direção ou qualquer estrutura hierárquica, nossa organização é pautada apenas na referência dos membros fundadores e nos membros ativos.

2. Fazem parte do Coletivo Negrada os membros ativos que vão às reuniões presenciais, constroem os seminários internos, participam das reuniões online, são responsáveis por determinadas atividades, estão em constante diálogo com os demais membros do Coletivo e, principalmente, compartilham dos valores do Coletivo Negrada.

3. O Coletivo Negrada NÃO responde por ações deliberadamente individuais de todos os estudantes negros da UFES, mas acolhe as denúncias de racismo para averiguação, apoio à vítima e encaminhamentos legais.

4. Ao associar qualquer protagonismo de pessoas pretas da UFES ao Coletivo Negrada, essa associação é racista. As/os estudantes pretas/os da universidade têm autonomia política e a exercem sem tutela de movimentos ou espaços institucionalizados, e os mesmos, devem ser respeitados.

5. Existem, além do Coletivo Negrada, outras organizações de universitários pretos na UFES e esses devem ser ouvidos, respeitados e terem visibilidade.

6. O Coletivo Negrada NÃO se propõe a ser uma organização universal, muito menos representante hegemônico de TODOS os estudantes negros da universidade.

7. O Coletivo Negrada NÃO É MOVIMENTO ESTUDANTIL, muito menos reivindicamos esse lugar, somos um Movimento Negro Universitário.

8. O Coletivo Negrada enquanto organização não disputa vaga em eventos/viagens relacionados a movimento estudantil, a menos que seja considerado pelo Coletivo alguma atividade importante para avançar no debate racial.

9. O Coletivo Negrada não está à frente das ocupações universitárias. Nos organizamos durante todo o mês de outubro e novembro para apoiar as ocupações secundaristas através de oficinas.

10. Durante o mês de novembro todas as atividades oficiais do Coletivo Negrada foram direcionadas à organização do Novembro Negro (palestras, oficinas, rodas de conversa, participação em eventos, atividades do projeto de extensão nas escolas públicas). Além da organização/participação na audiência pública sobre a fraude nas cotas raciais.

11. O Coletivo Negrada apoia as/os irmãs/os da Ocupação Quilombo Zacimba Gaba – Moradia Estudantil, ocupação legítima de estudantes pretos contra a PEC 55 e a MP 746. Além das pautas pela Moradia estudantil e pela retirada do processo da reitoria contra 3 estudantes negros.

12. O Negrada não adota a violência física como estratégia de luta, mas reconhece que o racismo por si só já é extremamente violento com os corpos pretos.

13. Entendemos que o racismo foi central na perseguição ao Coletivo Negrada e a estudantes negros durante a ocupação da reitoria de dezembro de 2015, que acarretou a um processo administrativo-financeiro à 3 estudantes negros, uma ocupação composto pela movimento estudantil.

Enquanto um Coletivo de universitários pretos temos a responsabilidade social de sermos multiplicadores do combate ao racismo e nossas ações extrapolam os muros da Universidade. O Coletivo Negrada realiza diversas ações educacionais como o projeto de extensão universitário CineNegrada que também é um projeto contemplado pela SECULT, o grupo de estudos Feminismo Negro e interseccionalidade, a participações em seminários e encontros acadêmicos, encabeçou a denúncia das fraudes nas cotas raciais, tem publicações acadêmicas sobre questões raciais de membros como alunos e professores, realiza palestras de importância da implementação da lei 10639/03 nas escolas e também parcerias com instituições públicas e privadas de ensino e produção cultural independente.

Apontar o Coletivo Negrada como responsável sobre qualquer ação em que seja pautada a questão racial, é invisibilizar e desqualificar a autonomia e possibilidade de outras organizações de estudantes negros que realizam suas próprias ações e que não necessariamente fazem parte do Coletivo Negrada.

As tentativas de desmoralizar o Coletivo Negrada são muitas e protagonizadas por quem não se compromete com o combate ao racismo e por isso prefere apontar falhas ao invés de somar.

A nossa militância tem referência ancestral, começou com os nossos mais velhos e a sua memória e luta devem ser sempre lembradas e aplicadas, estamos onde nosso povo está, lutamos pelo o que nosso povo luta e nesse caminho, sonhamos em transformar a universidade em um território preto abolindo assim todas as novas prisões.

Vida Dandara, Viva Zumbi e libertem Rafael Braga!

Nos Aquilombemos!

Novembro Negro

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RELIGIÃO E CONSCIÊNCIA NEGRA

Quando eu descobri que Deus me criou PRETO…

Há um ano atrás lá estava eu, trêmulo, pois como muitos de nós, vivi toda a minha vida negando minha cor e minha etnia. Mas, de repente eu me vi “nascer” PRETO do pior modo possível: O racismo bateu, arrombou minha porta. E eu abri.

Depois de um caso nacionalmente conhecido de racismo, onde fui era umas das vítimas, junto com minha turma do 2º período da universidade, ingressei no mundo da discussão racial. Mas eu era apenas um menino, ainda estava se encaixando na minha cabeça o que era ser preto. Porém, fui convidado pra falar sobre negritude e protestantismo em uma igreja batista. E agora? o que fazer? Se ser preto era uma novidade pra mim, imagina ser preto e protestante? qual relação havia nisso tudo?

Passe a me aprofundar nas leituras de textos que até então eram por mim desconhecidos, e busquei a bíblia, fiz minhas orações ao meu Deus, que a cada dia se revelava a mim, não mais como um branco velho barbudo ausente, mas como um preto igual a mim e que me entende, e marchei pra igreja. No local vi conhecidos, irmãos da igreja, o meu pastor e meus irmãos da militância. continuava trêmulo.

Minha irmã Tamyres, com todo seu afeto nos conduziu na reflexão sobre o tema. Foi lindo ouvi-la e perceber a importância desse tema ser debatido na Igreja.
Mas, de repente, lá estava eu, era minha vez. Eu, minha bíblia, e minha apresentação. Me lancei em Deus e fui. Fluiu. Mostrei o preto na bíblia e como ele é retratado e como o próprio Deus o trata e no fim afirmei: RACISMO É PECADO! Senti espanto, novidade e convencimento. Prossegui.Mostrei os meus vários irmãos pretos que lutaram por um mundo melhor desde os anglicanos até o líder pentecostal Willian Seymor.

E agora, o que dizer? havia findado a fala.
Mas eis que o Espírito me tocou e realmente me toquei de que o eterno Deus não erra em sua criação, e se Ele me fez preto, Ele não errou, quem errou nossa humanidade.
Resultado: foi lindo ver os pretos cristãos reconhecendo este Deus que empreteceu suas peles e encrespou seus cabelos e os deu tambores.  Houve apelo. A reunião finalizou com todos reconhecendo seus pecados de racismo e pedindo perdão por ele.

Dou glória ao meu Deus, que me fez PRETO. Eu posso ter “nascido” preto por um ato racista, mas está palestra foi meu renascimento como PRETO cristão, pois senti Deus me conduzindo em seus braços para se revelar a mim como Ele realmente é: O verbo que se fez carne na minha cor e me criou PRETO.

Obrigado SENHOR, MEU DEUS PRETO. Do ódio por minha pele e pelo ocorrido ao seu maravilhoso amor de Pai que acolhe e acalenta. Brigado meu PRETO REI.

Por: Timóteo André, Graduando em Ciências Sociais – UFES, Cristão Anglicano e membro do Coletivo Negrada.

 

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AS FRAUDES NAS COTAS RACIAIS E A FISCALIZAÇÃO DAS AUTODECLARAÇÕES NOS CONCURSOS PÚBLICOS E NAS UNIVERSIDADES.

Por: Mirts Sants*

Primeiramente, não venho falar em nome nem da direita nem da esquerda, mas em prol da luta do meu povo, que sempre estará em primeiro plano na minha ideologia política. Sou mulher preta, militante do movimento negro e vivencio na pele todos os dias, o que é ser negra/o no Brasil.

No início deste ano, denunciamos ao MPF cerca de 40 casos de fraudes nas autodeclarações do vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo, sendo que esse número é bem maior do que possamos imaginar, já que aqui, como a maioria das universidades brasileiras, não possuem mecanismos de fiscalização. Lutar contra as fraudes nas cotas raciais no Brasil tem sido o mesmo que lutar contra o próprio racismo institucional e suas diversas facetas, pois ao invés das instituições fiscalizarem o cumprimento da lei e protegerem os direitos reservados à população negra e indígena, adotam-se os velhos argumentos racistas para deslegitimar a lei de cotas e não responsabilizar os fraudulentos pelos atos ilícitos praticados. Sim, equipara-se ao crime de falsidade ideológica (Art.299 do Código Penal) a autodeclaração falsa para uso das cotas raciais.

Ao colocar um pouco de luz na história que a educação eurocentrada insiste em esconder da sociedade brasileira, é possível notar que não é de hoje que o movimento social negro luta pelo direito à educação dos afro-brasileiros! Sinto informar que “não é benesse de nenhum governo”, mas sim uma conquista da luta histórica de um povo que construiu esse país debaixo de chibatas e constantes violações de seus direitos e a humanidade por longos 400 anos, e enquanto isso, a aristocracia brasileira concentrava as riquezas e determinava a posição de cada sujeito “em seu devido lugar”.

Porém, só em 2012, depois de imensuráveis debates que trouxeram um desconforto nacional na branquitude, que se viu ameaçada de perder seu “status quo”, a Lei de cotas foi aprovada por unanimidade no STF, com pontos que já haviam sido alertados pelo movimento negro desde 1998. Um deles foi sobre a possibilidade de fraudes nas ditas autodeclarações sem fiscalização, mas a “brancaiada” que lá impera não iria deixar de manter tais “brechas” afim de garantir seu quinhão.

A busca por políticas públicas que melhorem as condições de vida da população negra vem sempre acompanhada de muita luta para garantirmos tais direitos. Isso porque as barreiras são impostas e realocadas ao passo que avançamos em direção a estes direitos. Por isso, a importância da participação ativa dos novos sujeitos de direitos, a juventude de negros e negras, que vem contribuindo na luta do movimento negro contemporâneo e permitindo uma oxigenação no movimento em prol das antigas e atuais demandas para toda a população negra.  

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O despertar da manhã de 04/08 aconteceu com a leitura de um texto no mínimo “oportunista” publicado pelo portal online Jornalistas Livres e escrito pela Jornalista Laura Capriglione, que também fez escola na Folha de SP. Intitulado APARTHEID BRASILEIRO: Governo Temer adota comitê de pureza racial a autora compara a verificação da autodeclaração pela análise dos fenótipos com a “Reedição constrangedora de práticas nazistas e do regime racista do Apartheid da África do Sul…”. Ela ainda credita ao “governo golpista de Michel Temer” a adoção da medida através da Orientação Normativa nº 3, de 1º de agosto de 2016, que trata-se de pleito do movimento negro há anos, como medida necessária e urgente para a fiscalização e coibição das fraudes nos concursos públicos, assim como, nos vestibulares das universidades públicas e privadas. Como se não bastasse, ela conclui o subtítulo da matéria dizendo ser este um “avanço definitivamente do sinal, atropelando os direitos humanos da comunidade afrodescendente”.

Ao primeiro momento, a indignação vem devido ao texto ser de uma jornalista que aparentemente se coloca como “aliada” das lutas dos movimentos sociais, de direitos humanos e pela Democracia do Estado Brasileiro. O que vimos, porém, logo em seguida é só mais um pouco da tradicional posição política, hierárquica, elitista, branca e racista, ao qual tanto questionamos da esquerda branca brasileira. Quando é preciso, para garantir seus privilégios e seus interesses, são capazes de tudo, inclusive cortar “na carne mais barata do mercado”, ou seja, “a carne negra”, como diz Elza Soares, na essência de seu viver. A autora, por vaidade e na tentativa de dar repercussão ao texto, foi infeliz em todas as suas colocações e argumentos. A infelicidade maior, contudo, residiu no fato de não querer ouvir as críticas do próprio movimento negro.

Antes de decidir escrever esse texto, tendo em vista que não sou escritora, muito menos jornalista, fui até a página pessoal da autora e pedi um “mea culpa” para que ela refletisse. Reconhecendo que havia cometido um erro tremendo e que se retratasse perante o movimento negro, pois muitas de nós, militantes do movimento, estávamos nos sentindo lesados/as pelo ‘“fogo amigo”, quando ela direcionou seus canhões para as mesmas vítimas do genocídio do Estado Brasileiro, que luta co-ti-dia-na-men-te pra conter as várias formas que o Estado e a sociedade têm para nos matar como povo preto, em especial os jovens negros, à quem sofremos para garantir o mínimo de expectativa de vida.

Como se não bastasse a invisibilidade dos nossos corpos negros e o silenciamento continuo de nossas vozes, as manifestações escritas que eu e tantas outros/as militantes do movimento negro fizemos na página pessoal e no portal dos jornalistas livres, não foram respondidas pela mesma. Quem sabe, sequer foram lidas. No alto de seus privilégios, está uma jornalista branca que não ouviu o movimento social ao qual se propõem “representar” em texto presunçoso e longe da realidade das lutas político e social que vivemos. Mas afinal cadê os jornalistas negros/as para orientar ou responder às demandas de cunho racial dos canais de comunicação tidos como progressistas?

Que fique bem escuro que é justamente por este e tantos outros motivos que o Movimento Negro por meio dos coletivos negros universitários vem lutando contras as fraudes e pela garantia da Lei de Cotas Raciais. Lutamos para ter cada vez mais jornalistas e profissionais liberais no mercado de trabalho e editoriais e para isso precisamos garantir o direito ao acesso ao ensino superior. Quem melhor do que nós pra falar de nós ou saber o que queremos e precisamos? As fraudes tem reduzido drasticamente as possibilidades de acesso da população negra nas universidades por meio das políticas de cotas, assim como, aos serviços públicos. Nas salas de aula e nos cargos de chefia nas empresas, ainda procuramos com dificuldade negros e negras. Quando nos identificamos, conseguimos contar nos dedos de uma só mão quantas/os somos.

Parafraseando a jornalista, eu me direciono aqui a Esquerda Branca Brasileira: “é vergonhoso” sim! Em pleno século XXI, depois de resistirmos a um terrível período escravocrata, conquistarmos uma falsa abolição, lutarmos em duas ditaduras, sobrevivermos a governos de direita, ainda termos que lidar com uma esquerda que usa as pautas dos movimentos sociais como massa de manobra para conquistar aquilo que deseja? A matéria fala de “Apartheid”, “Tribunal Racial” e “Pureza Racial”, todos estes termos foram e são usados ainda em tempos atuais nos argumentos que utilizam as ultrapassadas teorias racistas para a negação de nossa identidade e diluição dos direitos das populações menos favorecidas.

Sobre o “Apartheid”, o dia 04 de Agosto marcou os 25 anos que esteve no Brasil o líder africano Nelson Mandela. Em 1990, Mandela foi libertado depois de 27 anos na prisão por combater o racismo e o regime separatista do “Apartheid” na África do Sul. Recém-eleito presidente do Congresso Nacional Africano (CNA), ele realizou viagens internacionais em 1991, incluindo em seu roteiro alguns estados brasileiros, entre eles o Espírito Santo. O Apartheid, política instituída na África do Sul, nos Estados Unidos da América, entre outros países, ganhou destaque no mundo através da luta de Nelson Mandela que viveu uma vida inteira de cárcere para ver seu povo livre de tal discriminação. Comparar as bancas fiscalizadoras da autodeclaração com o “Apartheid” e práticas “Nazistas” é tão desonesto quanto desrespeitoso com todos aqueles que pereceram nesses períodos horrendos da história.

É uma pena que a matéria em foco não veio para denunciar o verdadeiro “Apartheid Brasileiro”, quando formalmente e/ou por meio de normas e procedimentos, ocupamos lugares pré estabelecidos socialmente, como as  cadeias, manicômios, embaixo dos viadutos, empregos subalternizados, as ruas, morros e favelas. Como esquecer o lugar da população preta, pobre e periférica nestas Olimpíadas no Rio de Janeiro? O principal critério utilizado para distinguir em que lugares devemos ou não estar são as características físicas e estéticas, ou seja, os fenótipos negroides. Quando é para sofrer racismo ou ser discriminado por injúrias raciais, nossos traços não são difíceis de serem identificados. Acredito ser este um critério que deva ser utilizado também para garantir os nossos direitos.  

Quanto ao “Tribunal Racial”, este já está instituído nas relações raciais desde o momento que a população negra e indígena é julgada sumariamente como suspeita e culpada antes mesmo do devido processo legal. Afinal de contas, o que são as instâncias jurídicas desde país? Quando na tríplice jurídica o sujeito negro ocupa quase sempre o lugar de réu?  E para não dizer que não falei da “pureza racial”, sabemos muito bem que aqui no país da “Democracia Racial”, onde todos somos “miscigenados” graças ao constante estupro das mulheres e dos homens negros e da política de Estado de “branqueamento”, que previa que até 2011 a não existência de negros no Brasil, uma gota de sangue negro não o faz ser abordado na rua ou ser morto pela polícia. Não é motivo sequer para sofrer racismo em razão de sua cor. Portanto, não me venha falar que “todos somos iguais” pois no dia a dia não é essa a realidade dos pretos e pretas. Quanto mais fenótipos negroides e melaninado for.

Este tema tem que ser tratado com seriedade e responsabilidade pois a necessidade de mecanismos de fiscalização e verificação da autodeclaração nos concursos públicos e nas universidades se dá devido às artimanhas do próprio racismo à brasileira, que primeiro nega a identidade negra aos afro-brasileiros, inferioriza-os, desqualifica e depois tira-lhes os direitos conquistados com tanta luta.  Te pergunto aqui, será que se eu disser que sou filha ou neta de descendentes europeus, terei assim o direito aos mesmos privilégios de ser branca perante a sociedade brasileira? A respostá é taxativa: Não! A branquitude, seja de direita ou de esquerda, para manter seus privilégios, ainda não admite que pretos e pretas possam sentar nos mesmos bancos das universidades, fazer os mesmos cursos, sejam eles os mais ou menos concorridos, dar aulas nas faculdades brasileiras, ocupar os mesmos cargos políticos ou de gestão, ou até dar ordens numa empresa.

EM PLENA LUTA PELA “DEMOCRACIA” NA DISPUTA “FORA TEMER” E “VOLTA QUERIDA”  O GOLPE ATINGE VIOLENTAMENTE EM NÓS PRETOS E PRETAS!!!

*Mirts Sants é Bacharel em Direito, Pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça e Membro Fundadora do Coletivo Negrada.

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Membros do Neab Viçosa – MG participam de ensaio fotográfico como forma de intervenção contra o racismo e as diversas opressões sofridas por jovens negros/as.

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Membros do Neab Viçosa – MG participam de ensaio fotográfico como forma de intervenção contra o racismo e as diversas opressões sofridas por jovens negros/as.

A proposta de trabalho é do Bailarino do Grupo Êxtase de DançaJoão Petronillo, monitor de dança da UFV que idealizou a “ação performática” intitulada pelo mesmo de “Voz”.

“É de grande importância que nós pretos estejamos presentes para dar “Voz” a nossa história diária. É a luta que transborda em arte” disse João em sua timeline convocando os estudantes e o público para a intervenção.

Essa iniciativa muito nos orgulha, pois sabemos que os corpos negros não apenas ocupam a academia e os espaços públicos, mas também transformam e reivindicam seus direitos.

13432166_1006832276074064_225984361144974343_nSegue abaixo texto original do autor da intervenção

TÍTULO: VOZ
AUTOR: João Petronillo

DESCRIÇÃO CONCEITUAL: O Racismo vem sendo uma problemática desde os tempos da escravidão e este comportamento opressor esta entranhado de forma velada na estrutura social brasileira. Os relatos de pessoas oprimidas são de que os ataques racistas acontecem ainda na primeira infância, seja no seio familiar ou a partir do primeiro contato escolar. Expressões de cunho pejorativos como “macaco”, “cabelo de bombril” e outros, estão presentes no cotidiano de pessoas negras afetando a autoestima e o desenvolvimento intelectual dos mesmos. Deste modo o sujeito oprimido cresce com a imagem destorcida de papeis e lugares que devem ocupar na sociedade que é reforçada pela ausência de representatividade em cargos de poder público, docência universitária e nas mídias em geral.

Na audiência pública para debater o relatório da anistia internacional, Ana Janaina Alves de Souza especialista da Secretaria Nacional da Juventude, pela CDH (comissão de direitos humanos) discorreu sobre o plano “Juventude Viva” que tem com enfoque tratar de assuntos relacionados a vulnerabilidade da juventude negra no Brasil.

Ao longo da audiência evidencias de dados que revelam o reflexo do racismo estrutural que se instalam em nosso pais foram apresentados. Segundo os dados de CDH; 27 % da população brasileira é jovem, sendo que 53,7% se declaram pretos e pardos. No ano de 2012 houveram 56,337 homicídios, destes 30.072 eram jovens entre 15 a 29 anos totalizando 53%. Deste total 71,5 % eram negros.

Com estas e outras informações fica evidenciado como o processo opressor do racismo reflete até os dias atuais no corpo negro; Genocídio, falta de representatividade, objetificação do corpo pela indústria pornográfica e mídia, falta de representatividade e outras questões. Tal constatação, tem despertado para produções literárias, artísticas e seminários com abordagem na problemática da exclusão e opressão.

Neste enfoque se propõe a performance “Voz”, a qual dará visibilidade ao oprimido partindo de memórias geradas pelo opressor. O trabalho é inspirado em várias ações oriundas do ativismo negro presente nas universidades de todo pais, tendo alcançado as redes sociais em 2014, levantando questões para conscientização do jovem negro nas universidades.

DESCRIÇÃO FACTUAL: Essa performance busca ser um meio de tornar visível a opressão sofrida longo da vida do sujeito oprimido, externalizada através da escrita em lousa que ficara disponível para livre expressão do consultado.

MATERIAIS UTILIZADOS: Lousa, giz, apagador.
DURAÇÃO: Indeterminada

FOTÓGRAFO: Bruno Monteiro

Confira o ensaio completo em: Álbum do facebook

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