NOTA DE REPÚDIO CONTRA O “ARRASTÃO DE RACISMO” OCORRIDO NO SHOPPING VITÓRIA EM 30/11/2013.

Vimos por meio desta nota, REPUDIAR a atuação da Polícia Militar e a abordagem preconceituosa dada pelos meios de comunicação capixaba que veicularam o fato ocorrido no dia, 30 de Novembro, último dia do Mês da Consciência Negra, como sendo de um “ARRASTÃO” de funkeiros.

O fato ocorreu quando a Polícia Militar invadiu a área do pier, atrás do shopping vitória, local onde estava acontecendo um baile funk, foi quando alguns jovens fugiram para se protegerem nas dependências do shopping vitória.  Os frequentadores do shopping entraram em pânico com a presença destes jovens, que antes mesmo do ocorrido, já se encontravam presentes neste espaço “proibido” desobedecendo a ordem de colocarem-se em seu “lugar” e,  causando com isso tamanho desconforto e desconfiança não só dos consumidores como também dos lojistas e da segurança do shopping.

A polícia invadiu o shopping, como os capitães do mato, em busca dos escravos foragidos, caçando qualquer jovem que se enquadrasse no “padrão funkeiro”. Como se não bastasse, humilhou e ridicularizou um grupo de jovens em praça pública, deixando-os: sem camisa, agachados e com as mãos na cabeça, como nas revistas aos presídios e sobre os aplausos da população que eivadas de preconceitos raciais e sociais aprovaram a atuação do poder estatal, sem defender sequer o direito a dignidade humana daqueles jovens.

Ao analisar a situação que os negros passavam no período da escravidão percebem-se situações semelhantes na sociedade atual. No período escravocrata, a violência foi uma das características mais marcantes.  Naquele período havia o controle da vida dos negros e severas punições as quais eram submetidos. Esses castigos impostos aos escravos, apresentados como espetáculos, faziam parte “do governo econômico dos senhores”.

Essa situação de violência se reflete na sociedade atual com mecanismos distintos daquele período, os instrumentos e agentes de opressão mudaram, no entanto, essa violência se configura de outras formas. Ao analisar o índice de homicídio de jovens negros no Brasil mostra como a violência continua a refletir sobre a população negra, sendo 70% das vítimas de homicídios no país.

O estado do Espírito Santo, por sua vez, é um dos estados com maior índice de homicídio de jovens negros e o acontecimento de sábado no Shopping Vitória retrata uma das formas de violência contra esses jovens. O povo negro é vítima da imposição cultural dos povos dominantes desde muito tempo.  A forma que a população negra sempre foi sujeita faz com que seus elementos culturais sejam mal vistos, discriminados e negados em diversos espaços sociais.  A exclusão do negro é o que ocorre implicitamente e explicitamente no Brasil, havendo sempre o padrão, estabelecido pelo Branco, a ser seguido.

O acontecimento de sábado retrata bem essa visão social que está impregnada na sociedade. Aquelas pessoas foram tratadas de maneira violenta por serem e terem sua cultura negada todos os dias.  Os espaços sociais onde devem atuar são determinados e impostos não havendo o direito de estarem em todos os locais da sociedade.

A PM é o instrumento público que mais representa a manifestação do modelo de política adotada pelo Estado. O que se observou no ocorrido do Shopping Vitória, no último dia 30, simplesmente reflete uma política de estado adotada e fomentada pelo atual governo. Tal força tem agido historicamente como agente mantenedor do “status quo”.

Ao observar essa situação e os diversos debates levantados sobre esta temática  revela-se que não há no Brasil uma política de segurança pública, mas sim uma política de Estado voltada para criminalizar determinada parcela da sociedade e proteger o capital privado. Uma polícia que se mostra literalmente racista, fascista e machista, não deve jamais existir num estado democrático de direito verdadeiramente humanizado que tanto se almeja.

Cumpre trazer a lume que essa tendência de criminalização dos jovens negros,  pobres e daqueles que se manifestam “funkeiros”, em que o Estado, por meio do discurso capcioso da ordem e progresso, declara guerra. Remete-nos a corrosão da Democracia, da qual os jovens são rotulados  drogados e  criminosos  pelo  simples  fato  de  serem  funkeiros,  massacrados  pelo procedimento  da  polícia,  assassinados  e  destruídos  simbolicamente,  por fim, levados às cadeias perfazendo a super lotação de pobres e negros.

Face ao exposto, repudiamos veemente toda e qualquer violação de direitos, discriminação ou preconceitos em razão de cor, raça, etnia, gênero, idade, orientação sexual ou condição social, assim como, também repudiamos a duvidosa cobertura jornalística feita por veículos de comunicação que noticiaram os fatos sem ao menos checarem a veracidade das informações, e o pior, sem darem voz às vítimas do ocorrido no Shopping Vitória, e, com isso, levarem  leitores à conclusões equivocadas, lamentável disseminação do racismo, e ao preconceito em rede.

“QUEREMOS O FIM DO RACISMO, O FIM DA CRIMINALIZAÇÃO DA POPULAÇÃO E DA CULTURA NEGRA; A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10.639/2003, QUE VEM PARA SUPRIR A NECESSIDADE DE TODA A SOCIEDADE COM A OBRIGATORIEDADE DO ENSINO DA HISTÓRIA E DA CULTURA AFRO-BRASIELEIRA.  E A DESMILITARIZAÇÃO (HUMANIZAÇÃO) DA POLICIA MILITAR, POIS ACREDITAMOS QUE SÓ ASSIM VENCEREMOS O RACISMO E ESTAREMOS LIVRES DOS ABUSOS E VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS CADA VEZ MAIS PRESENTES EM NOSSO ESTADO!“

PROPOMOS TAMBÉM:

  • O Fim do Extermínio da Juventude Negra;

  • A Valorização da Cultura Negra – Chega de criminalização do funk;

  • Implementação JÁ! da Lei 10.639/03, que prevê a obrigatoriedade do ensino nas escolas da verdadeira História e Cultura Afro-brasileira e Africana.

  • Que o dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, seja feriado no Espírito Santo;

  • O Recorte histórico e cultural visando à Descriminalização do Funk;

  • O Fim do Racismo Institucional;

  • Contra a redução da Maioridade Penal;

  • A Desmilitarização da PM;

  • A Democratização dos meios de comunicação (Mídia);

  • A Retratação imediata do Shopping Vitória;

  • O Afastamento do comandante da ação;

  • O Afastamento do Secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social;

  • A Retratação do Governador Renato Casagrande.

Assinam esta nota o Coletivo Negrada, organização de estudantes negros/negras e cotistas da UFES, o Instituto Civitas dos Direitos da Cidadania – organização não governamental, voltada para a defesa dos direitos coletivos, com ênfase nos direitos fundamentais da pessoa humana e nos direitos sociais, e demais representantes dos movimentos sociais e do movimento negro que abaixo subscrevem…

30 de Novembro de 2013, Vitória, ES

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