Vamos falar de racismo dentro da universidade, vamos?!

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Por: Tay Vieira, Graduanda em Geografia UFES – Membra do Grupo de Estudos “Feminismo Negro e Interseccionalidades” – UFES/Pretas Negrada
Começo essa reflexão readaptando a famosa frase de Simone de Beauvoir: “Não se nasce negro, torna-se negro”. A consciência de ser negro não nos é dada logo que nascemos. Muitas vezes até reproduzimos discursos racistas, negando completamente nossa etnia. Afirmar-se negro é resistência, é reconhecer o racismo, carregar conosco todo um processo histórico… Vai muito além dos cabelos e traços. Reconhecer-se negro é um ato político!

Desde que me “descobri” negra, uso o termo descobri, pois até antes disso eu não me via como negra, eu não queria fazer parte das estatísticas dessa gente, não queria ser aquela que só serve para o ato sexual ou aquela que os seguranças devem ficar de olho. Meus relacionamentos seriam com brancos, assim talvez eu conseguisse clarear um pouquinho a família.
Amigos negros? Nem pensar! Cabelo Black também não, isso era ridículo, coisa de preto pobre. Tudo isso fruto de um racismo velado dentro do próprio lar, dentro das instituições de ensino que sempre me apresentava à figura do negro como um ser digno de dó. Fruto dás diversas mídias que nunca se importaram com a questão da representatividade para crianças negras, em geral ser negro sempre soou como algo negativo.

Quando me entendi como negra (o que não é tão simples, pois trata-se de um processo diário de auto afirmação e empoderamento) vi o quão linda e rica é a minha ancestralidade, quão belo é minha cor e tudo que ela representa.

Depois de iniciado esse lindo processo, comecei a me questionar sobre assuntos que antes passava quase que despercebidos, como a questão do abandono a mulher negra, a solidão da mulher negra e as frequentes proposta de descompromisso/ amor livre sendo mulher negra. Talvez, pra você esses temas pareçam longínquos ou exageros (a questão de parecer exagero é que todo racista sempre vai dizer que é exagero mesmo. Nunca irá reconhecer. então nem vou discutir isso). Quero apenas mostrar o quão próximo de nós estão essas questões pontuadas acima.

Vamos lá, basta que você transite nos diversos meios que a universidade nos proporciona (vai proporcionar mais ainda se você for brancx ), se apurar seus olhos e ouvidos você verá que grande parte das pessoas presentes são brancas, ouvirá eles se denominando de esquerda. Verá que eles aderem aos discursos libertários e também que utilizam do amor livre como pratica de oposição ao relacionamento monogâmico (aqui eu me refiro principalmente aos homens). Ouvirá eles verbalizarem o discurso de que o relacionamento monogâmico é uma pratica que oprimi mulheres.
Bom, até aqui ok. Não estou dizendo que é mentira. Mas será que só eu acho tão estranho que esses homens se importem tanto em nos proporcionar um relacionamento aberto, se mostrando tããão preocupados com nossa liberdade e que nas outras questões da liberdade feminina eles simplesmente se ausentem?!

A questão migas, a questão é que eles se apropriam desse discurso para serem beneficiados. Eles estão cagando para liberdade do corpo da mulher, principalmente do corpo da mulher negra.

É incrível a quantidade de vezes que esse tipo de relacionamento é proposto a nós mulheres negras. Impõem a nós esse discurso fodido, nos oprimem. Pondo até mesmo o nosso feminismo “em jogo”, de uma maneira tão mesquinha, egoísta e, sobretudo machista. Através de toda essa pressão e chantagem psicológica, levam-nos a aceitar ou muitas vezes nos manipulam para satisfazermos suas vontades de uma tal forma que passamos a acreditar que essa ideia partiu de nós. O que não é verdade. Lembrando que não estou dizendo que mulher não consegue ter relacionamento aberto/livre por vontade própria, estou falando aqui a respeito da imposição dessa prática sobre nós.

A mulher negra sofre abandono em todos os âmbitos possíveis! Na maioria das vezes seu primeiro abandono é ainda quando criança, quando o pai aborta deixando-a com a mãe. Depois que cresce a tendência ao abandono é ainda maior, pois os homens negros nos rejeitam e os homens brancos nos objetificam, nos sexualizam. Nossas histórias de “amor” são grande parte composta pelo enredo do abandono. Somos abandonadas pelo sistema, somos estatísticas todos os dias. Somos as que mais morrem com o aborto clandestino, somos as que mais morrem pelo machismo. Não estamos apenas nas margens da sociedade, estamos nas margens do amor também. Lutamos para entrar na universidade e quando entramos nos deparamos com propostas de amor livre?
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Homem, a verdade é que você quer satisfazer o seu fetiche comendo uma negra e sair fora com o seu discurso tosco de amor livre. A verdade é que você é racista. A verdade é que você não nos considera dignas de sermos apresentadas. A verdade é que quando você for por uma aliança no dedinho de alguém, provavelmente não será no de uma mulher negra!
COLEGA UNIVERSITÁRIO QUE BRINCA DE SER POBRE, PRÓ-FEMINISTA E FINGE PREGAR A IGUALDADE: O SEU RACISMO NÃO ME SURPREENDE!
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