O racismo que ridiculariza Inês Brasil

Por: João Victor, Acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo, virginiano, 22 anos e frenético estudioso de obras pretas. Mas o que me trouxe até aqui foram as ruas, vielas e becos que percorri e as pegadas que construí.

Inêss Brasil virou febre nas redes sociais há alguns anos com um vídeo em que ela pede para entrar na casa do Big Brother Brasil e logo já foi alvo de inúmeros instrumentos de brincadeira, os chamados memes. Também logo foi “adotada” pela comunidade LGBT (gays brancos em sua maioria) e virou um ícone de humor e amor, o que dizem.

Visto dessa forma, fica tudo muito lindo e harmonioso, mas, não é dessa forma que funciona.

No surgimento da Inês se levantou uma “dúvida”: se ela era mulher ou travesti. Sim, a comunidade homossexual fazia enormes debates para “descobrir” se Inês era mulher de vagina ou mulher de pinto (coloco de maneira agressiva para essa galera perceber que esse debate já foi ultrapassado e para deixarem de tratar a travesti/trans no masculino! travesti/trans são mulheres!). Inês sempre falava que era “mulher” mas a comunidade homossexual branca em sua maioria não dava ouvidos e só foi finalizado a “dúvida” quando “descobriram” uma filha dela. Ora, a palavra de uma mulher nunca é levada a sério, agora imagine uma mulher negra?

Inês Brasil também faz shows pelo Brasil, não raro, na verdade bem rotineiro é possível encontrar vídeos/fotos dos shows e também da parte em que ela recebe essa galera para tirar fotos. Nos shows, o assédio, o abuso, o estupro é recorrente e normalizado pela boate com a afirmativa de “todo faz/ ela gosta”, o que me lembra muito bem a desculpa do “foi estuprada porque tava com shorte curto”. (Mais uma vez, culpabilizando a vítima!).

Como se não bastasse, postam um vídeo íntimo da Inês com um cara. E o que a comunidade homossexual branca faz? Abraça o homem branco que gravou/postou o vídeo o tornando super popular no instagram e, pirem, DJ super requisitado. E para Inês o que fica? Apenas uma repulsa dessa comunidade com o seu órgão genital, muitos ainda falavam “como esse cara teve a coragem?”, o homossexual carrega a misóginia com o corpo da mulher, falar em vagina faz os homossexuais desfilarem caras de nojo e alguns ainda imitam como se estivesse vomitando.

Ah, e o que dizer do empresário que a agrediu e ela denunciou mas o silêncio de quem a ama foi mais forte. Acabou que de forma bem complicada, por envolver inúmeros fatores, Inês falou que tudo não passou de um engano, mas as fotos estão aí para quem quiser ver a agressão sofrida!

Diante tudo isso, eu me pergunto, onde está esse amor? Inês é uma mulher negra, o que já se torna alvo fácil para a ridicularização, os inúmeros memes estão aí pra provar, suas músicas só são aceitas na balada às 4hrs da manha, que é a hora da selvageria/putaria, algo muito comum com o funk e com as culturas produzidas pela população negra( aliás, CULTURA sim a Inês produz!) e quando não está nessa situação, enche o peito pra dizer que “deus me livre ouvir Inês Brasil/funk”.

Eu não consigo enxergar a humanidade dela na forma em que essa comunidade apresenta, eu só consigo enxergar como um instrumento de humor em que vou gostar dela quando for conveniente e nas outras horas, é melhor ter distância.

Por essas e outras, eu não tenho estômago para o racismo e machismo de vocês movimento GGG!

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Sobre João Victor Santos

Acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo, virginiano, 22 anos e frenético estudioso de obras pretas. Mas o que me trouxe até aqui foram as ruas, vielas e becos que percorri e as pegadas que construí.
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