Máquina 2

Pai, eu não a quero mais.

Eu imagino que seja duro, acredito também que você deve achar que é apenas uma fase rebelde, mas meu Pai, esses cabelos não serão mais cortados novamente, e se forem cortados, será em um novo contexto e de outro olhar.

Desde muito cedo meu Pai era responsável pelo meu cabelo, era papel dele me levar no seu cabeleireiro para cortar os nossos cabelos, a gente sempre cortava juntos. Papai nunca deixou qualquer um encostar as mãos nos poucos cabelos brancos que tem, era um certo cuidado mas que esse cuidado era saciado com a maquina 2 passando, a cada 15 dias. A cada 15 dias, a máquina 2 se fazia presente em nossas vidas.

Eu acreditava que era estético, que a cabeça raspada me deixava mais atraente e as vezes até bonito, mas até o momento era tranquilo lidar, eu ainda estava na bolha, cabelos dos meninos raspados, das meninas presos ou alisados, uma ou outra destoava e apostava nos cachos, sempre com bastante creme para conter o volume. O cabelo era uma questão, mas havia um pacto de silêncio, e então, o cabelo não virava uma questão da identidade.

Tempo vai, tempo vem, e no meu ensino médio a bolha se rompe como um tapa no meu corpo. Em uma nova cidade, em uma nova escola com uma nova turma, hábitos mudaram radicalmente, convívios foram transformados e meu corpo quer se adaptar. Observava os meninos com seus franjões Justin Bieber e os imitava com a toalha ou com uma camisa na cabeça, e ao me olhar no espelho, percebia que havia algo que não iria se enquadrava, o nariz era muito grosso e não tinha photoshop capaz de concertar, a boca… Poderia ser menos exagerada, não combinava com as expressões que queria imitar, e a cor… Porque essa cor? Não dá! Nos colírios capricho não tem nenhum… Dessa cor. O conflito interno estava armado, trincheiras e trincheiras, de uma guerra interna que só estava começando.

Raspei a cabeça, comprei roupas de marcas, entrei pra academia, deixei de pagar aluguel pra frequentar festas e ser notado. Papo furado, no jogo mercadológico a marca é desvalorizada no seu contato, e nas relações, o corpo em contato com o seu suor é humilhação demais pra ser passado em público. E pra variar, não me encaixei.

E assim fui levando, construindo uma identidade a partir da aprovação do outro. Boca gostosa, disse um… Amarelo em você não fica legal… Continue a malhar que você vai ficar bem pagável… Sempre tive curiosidade sobre um pênis negro…

E nessas andanças a gente vai se adaptando, são como grandes muros em que temos que achar brechas para passar, mas que no fundo, são muros de labirintos, a gente está perdida e esse labirinto não tem premiação e nem fim.  O que enxergamos como positivos, pegamos pra si e nos moldamos em torno disso – A Boca é gostosa? Vira parte do corpo em que mais gostamos. Eu nunca gostei de amarelo mesmo. Ficar com um corpo malhado realmente vai me dar mais notoriedade. E meu pênis, ah, se quiser eu posso te mostrar.

É um caminho sem volta, sem nenhum retorno além de prazeres e gozos momentâneos trancados no quarto ou em algum esconderijo público, longe de todos.

E aí a gente se perde não nos reconhecemos e não nos adoramos. Vivemos em função do prazer do outro, dizendo sempre sim, pra tudo. Mas a humanidade ela também é medida a partir do não. E então eu disse não.

Não! Gosto muito da minha boca, mas você já escutou o que ela tem a falar? Na verdade, roupa amarela realça mais minha cor, preciso abastecer meu armário com amarelo! Ai malhar… Preguiça… Estou preferindo escrever ao som de música. E o pênis, bem, não mais.

E nesse novo caminho, outras aberturas são possíveis e um novo redescobrimento do seu corpo esta colocado. Um novo ângulo pra fotos são descobertos e se ficar mais preto, melhor. O nariz se encaixou perfeitamente com o formato do sorriso, e a pele, ainda bem que é essa pele! Imagine se fosse outra?!

Mas faltava algo, faltava algo que a cada 15 dias me acompanhava, sozinho em casa, agora eu mesmo cortava meus cabelos com a máquina que meu pai me deu quando me mudei, na maquina só tinha o pente 2, uma maquina antiga e que se prestava a manter o ritual. Quinzenalmente ouvia-se seu som, quinzenalmente cabelos aos chãos, quinzenalmente um muro erguido.

– Pai, pode ser ofensivo, e acredite não é! Mas hoje seu filho foi voar, seu filho não cabe mais nela, me desculpe quebrar o ritual, mas eu quero enfrentar o ar, eu quero me conhecer por inteiro e nessa minha descoberta eu vou te descobrindo um tanto. Você me levou no seu cabeleireiro e por vezes cortou meu cabelo para me tocar, para me ensinar e ser um pai carinhoso. O seu carinho eu guardo, não largo de jeito nenhum, mas hoje essa maquina 2 me machuca e me fere. É essa ferida que quero enfrentar.

Arquivo Pessoal, julho 2016.

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Sobre João Victor Santos

Acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo, virginiano, 22 anos e frenético estudioso de obras pretas. Mas o que me trouxe até aqui foram as ruas, vielas e becos que percorri e as pegadas que construí.
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